Bleach: Rebirth of Souls – Análise
O universo de Bleach sempre foi um terreno fértil para jogos que tentam capturar a essência frenética de suas batalhas espirituais, mas poucos conseguiram realmente entregar uma experiência que honrasse a complexidade do mundo criado por Tite Kubo. Rebirth of Souls surge como a mais recente tentativa, e enquanto acerta em algumas frentes, ainda tropeça em outras de maneira frustrante. Desenvolvido pela Tamsoft, conhecida por seus trabalhos em jogos de anime como Senran Kagura e Captain Tsubasa: Rise of New Champions, e publicado pela Bandai Namco, o jogo chega em um momento onde a franquia vive um renascimento graças ao anime Thousand-Year Blood War, aumentando as expectativas de qualquer fã. E é justamente esse peso das expectativas que faz com que cada acerto seja celebrado, mas cada erro pareça ainda mais gritante.
Anunciado durante a Anime Expo 2024 e lançado para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox Series X/S e PC em 21 de março de 2025, Bleach: Rebirth of Souls chegou envolto em uma névoa de expectativas e nostalgia, mas seu lançamento acabou marcado por uma série de problemas técnicos que deixaram a comunidade de jogadores dividida entre a empolgação pelo retorno da franquia e a frustração com a experiência entregue, pagando um preço por isso. O primeiro e mais gritante problema foi o estado desastroso da versão para PC no dia do lançamento. Jogadores relataram crashes constantes, quedas de desempenho inexplicáveis e até mesmo incompatibilidade com controles, tornando o jogo praticamente injogável para muitos. As críticas foram tão severas que a desenvolvedora Tamsoft foi obrigada a lançar um patch de emergência na primeira semana.
No console, a situação foi incomparavelmente melhor, mas não isenta de falhas. Usuários do PlayStation 5 e Xbox Series X|S relataram bugs visuais, como texturas que não carregavam corretamente e efeitos de iluminação que simplesmente desapareciam durante certas cenas. O modo online, que deveria ser uma das principais atrações, sofreu com instabilidade e com partidas sendo interrompidas sem motivo aparente, além de uma latência que variava drasticamente mesmo entre jogadores da mesma região. De toda forma, passada a conturbada primeira semana, o jogo está apto para ser apreciado e devidamente avaliado pelos fãs.
Para quem nunca ouviu falar, Bleach é uma série de manga criada por Tite Kubo, publicada na Weekly Shonen Jump de agosto de 2001 a agosto de 2016. A história, de maneira bem resumida, é sobre a trajetória de Ichigo Kurosaki, um estudante do ensino médio com a habilidade de ver fantasmas. Ichigo conhece Rukia Kuchiki, uma Ceifadora de Almas, que está na cidade para caçar um Hollow, uma alma perdida que ameaça humanos e fantasmas. Após ser ferida, Rukia transfere seus poderes a Ichigo, que se torna um Ceifador de Almas Substituto enquanto ela se recupera. Juntos, eles enfrentam Hollows com a ajuda de outros aliados. Nos primeiros arcos, a narrativa foca nos personagens humanos, mas à medida que avança, explora o mundo dos Shinigami e suas guerras contra os Arrancar e os Quincy.
O elenco de personagens é um dos pontos altos indiscutíveis. Com 33 lutadores disponíveis no lançamento, há uma variedade que vai desde os protagonistas óbvios, como Ichigo Kurosaki e Rukia Kuchiki, até escolhas não tão óbvias assim, como Ikkaku Madarame e seu Bankai brutalmente honesto. Cada um deles foi meticulosamente recriado para refletir não apenas seus poderes, mas sua personalidade em combate. Ichigo, por exemplo, tem um estilo agressivo, com golpes que refletem sua natureza impulsiva, enquanto Byakuya Kuchiki exala elegância, com movimentos que fluem como suas próprias pétalas de Senbonzakura. A atenção aos detalhes se estende até mesmo às transformações, que não são apenas visuais, mas alteram significativamente o estilo de luta. Ver Ichigo desencadear seu Hollow interior ou Byakuya revelar o verdadeiro poder de seu Bankai são momentos que qualquer fã vai querer repetir inúmeras vezes, não apenas pela nostalgia, mas pela satisfação de ver esses momentos tão icônicos traduzidos com tanto cuidado. E, embora Rebirth of Souls não tenha o quantitativo absurdo de personagens de um Dragon Ball: Sparking! Zero, aqui sua quantidade é satisfatória para o tipo de obra que ela é.
Sobre sua jogabilidade, a mecânica central gira em torno do uso das Zanpakutou e do sistema Zankensoki, que combina Zanjutsu (espadas), Hakuda (combate corpo a corpo), Hohou (movimentação) e Kidou (técnicas espirituais). Os jogadores devem quebrar os estoques de Konpaku do oponente, que funcionam como vidas, cada um contendo uma barra de Reishi que equivale ao HP tradicional. Quando os estoques acabam, a luta pode ser finalizada com um golpe decisivo.
O sistema de batalha inclui ataques rápidos e fortes, golpes que quebram a defesa e técnicas únicas para cada personagem. A movimentação estratégica se baseia no Hohou e em Steps, permitindo esquivas e reposicionamento. Além disso, o jogo traz o sistema Reverse Fate, onde os personagens liberam novas formas e habilidades ao atingir um estado crítico. Algumas unidades possuem Reawakening, permitindo transformações avançadas, como a Segunda Etapa de Ulquiorra Cifer.
É no sistema de combate que Rebirth of Souls realmente tenta se diferenciar da concorrência. Enquanto a maioria dos jogos de anime opta por um estilo simplificado, quase como um teatro de botões sendo esmagados, onde o espetáculo visual supera a profundidade mecânica, aqui há uma tentativa genuína de criar algo mais substancial. A movimentação em oito direções, que é um avanço em relação a tantos jogos de arena tradicionais, dá aos jogadores mais controle sobre o posicionamento, abrindo espaço para estratégias de whiff punishing e footsies que são raras no gênero. O Reverse é realmente uma adição interessante, funcionando como uma espécie de mecanismo que pode ser ativado em diferentes situações para obter vantagens. Usá-lo no meio de um combo estende sua duração, enquanto ativá-lo durante um ataque inimigo pode funcionar como um Combo Breaker de Killer Instinct, dando aquele fôlego necessário para virar o jogo.
São camadas que, no papel, soam maravilhosas, mas na prática esbarram em problemas de execução. O input delay ocasional, especialmente em conexões online, e alguns bugs de hitbox podem transformar uma jogabilidade que poderia ser brilhante em uma experiência frustrante em certos momentos.
Falando em online, é aqui que o jogo mais decepciona. A falta de um modo ranqueado no lançamento é uma omissão incompreensível para um título que claramente tem ambições competitivas. O que resta são partidas casuais e lobbies privados, que, embora funcionais, não oferecem aquele senso de progressão e rivalidade que mantém os jogadores engajados a longo prazo. O netcode, embora estável em conexões locais, é delay-based, o que significa que qualquer partida contra alguém em outra região pode se transformar em uma experiência cheia de atrasos.
Em jogos de luta, a resposta rápida ao apertar o botão é essencial para uma boa experiência offline, porém, em partidas online, a conexão de internet pode causar atrasos, conhecidos como input lag, que prejudicam o combate. No delay-based netcode, os movimentos só aparecem no jogo após um tempo, dependendo da conexão, o que pode tornar a partida lenta. O rollback netcode, por sua vez, lida melhor com a latência, processando os comandos instantaneamente e prevendo os movimentos, corrigindo-os rapidamente quando a entrada chega. Embora possa causar “teletransportes” de personagens em alguns casos, essa abordagem é muito superior às travadas do delay-based netcode. Em um gênero onde cada frame conta, isso é simplesmente inaceitável em 2025. E a ausência de crossplay piora a situação, fragmentando ainda mais a base de jogadores. É uma série de decisões questionáveis que parecem sabotar o potencial competitivo do jogo antes mesmo dele ter a chance de decolar.
O modo história é uma faca de dois gumes. Por um lado, é claramente onde a maior parte do orçamento e cuidado foram investidos. Cobrindo desde os primeiros episódios do anime até o clímax da saga Arrancar, a campanha principal é uma jornada nostálgica repleta de momentos marcantes da franquia, recriados com uma mistura de cutscenes ilustradas, diálogos em batalha e sequências no estilo visual novel. As cutscenes ilustradas são particularmente impressionantes, capturando o estilo do mangá de Kubo com uma fidelidade que faz o coração de qualquer fã bater mais forte. No entanto, muitas das narrativas são contadas através de sequências estáticas de visual novel, que, embora funcionais, parecem uma solução preguiçosa quando comparadas aos padrões estabelecidos por jogos como Dragon Ball Z: Kakarot ou mesmo Naruto: Ultimate Ninja Storm. Não estão no mesmo nível de decepção das cenas estáticas de Dragon Ball: Sparking! Zero, mas incomodam um pouco.
Outro aspecto negativo é a ausência do arco Thousand-Year Blood War, que não só é o mais recente e hypado, mas também o que mais tem relevância no momento atual da franquia. É outra decisão inexplicável que deixa a sensação de que o jogo já nasceu incompleto.
Felizmente, as Secret Stories salvam a experiência single-player. Essas histórias secundárias exploram eventos inéditos ou mostram perspectivas alternativas dos personagens, e são aqui que o jogo realmente brilha. A história de Urahara, por exemplo, mergulha em seu passado como capitão da Soul Society, enquanto a de Kenpachi oferece uma visão de sua relação com Ichigo. Cada uma dessas missões é totalmente dublada em japonês e inglês e apresenta pelo menos uma cutscene ilustrada de alta qualidade, além de, em alguns casos, introduzir personagens não jogáveis que agregam ainda mais valor para os fãs hardcore. São cerca de 15 horas adicionais de conteúdo que, diferentemente do modo história principal, nunca caem na mesmice graças à sua variedade de tons e estilos narrativos.
Visualmente, Rebirth of Souls é um jogo de contrastes. Quando está bom, está muito bom – as animações de supers e finalizações são espetaculares, cheias de detalhes que fazem jus aos momentos mais icônicos do anime. No entanto, em outros momentos, o jogo parece surpreendentemente pouco polido. Alguns cenários têm texturas borradas que parecem saídas de uma geração passada (talvez justificável por conta de que até hoje os novos jogos continuam contando com versões para gerações anteriores) e a falta de detalhes em certos efeitos especiais incomoda um pouco. A trilha sonora, pelo menos, é impecável, com músicas que não apenas capturam a atmosfera de Bleach, mas também se adaptam dinamicamente aos combates, intensificando-se durante momentos cruciais como ativações de Bankai. É, indiscutivelmente, o ponto mais forte do jogo e de qualquer outro jogo de luta.
No final das contas, Bleach: Rebirth of Souls é um jogo que tenta agradar a todos – fãs casuais que querem reviver a história, competidores que buscam profundidade mecânica, e espectadores que só querem assistir às cenas espetaculares – mas acaba não entregando uma experiência perfeita em nenhuma dessas frentes. Há muito amor e cuidado evidentes em certos aspectos, mas também uma série de decisões questionáveis e cortes que impedem o jogo de alcançar seu verdadeiro potencial. Com atualizações que resolvam os problemas técnicos e adicionem o conteúdo que falta – especialmente o modo ranqueado e o arco Thousand-Year Blood War – ele poderia facilmente se tornar o melhor jogo de Bleach já feito e um dos melhores jogos de arena lançados.